O avanço da eletromobilidade no país está transformando o setor de combustíveis e criando uma nova corrida por infraestrutura de recarga, especialmente de recarga ultrarrápida, capaz de atender ao crescimento acelerado da mobilidade elétrica no Brasil.
À frente desse movimento está Eduardo Costa, fundador do Grupo Farroupilha, que lançou a Esquina do Futuro, considerada a primeira rede estruturada de eletropostos do país.
O projeto surge em um momento decisivo, em que o número de veículos eletrificados vendidos mais do que dobrou e começa a pressionar redes privadas e o poder público por soluções rápidas, seguras e eficientes.
O mercado de mobilidade elétrica no Brasil vive um ponto de inflexão.
Em 2024, o país ultrapassou a marca de 150 mil veículos eletrificados vendidos, e a projeção para 2025 supera 330 mil unidades.
Esse crescimento acelerado expõe um gargalo estrutural: a falta de infraestrutura de recarga compatível com a nova demanda.
Embora o Brasil já conte com mais de 12 mil pontos de recarga, menos de 3 mil oferecem recarga ultrarrápida, capaz de abastecer um veículo em poucos minutos.
A maioria ainda depende de carregamentos lentos, que podem levar até 12 horas, limitando a experiência do usuário.
“Hoje, o Brasil tem mais de 12.000 pontos de recarga, mas menos de 3.000 são rápidos de verdade.
O resto é carregamento de 6, 8, 12 horas. Isso não resolve a vida de ninguém”, afirma Eduardo Costa.

De lojas de conveniência aos eletropostos do futuro
A trajetória do empresário ajuda a entender a lógica do novo modelo.
Ainda adolescente, Costa encontrou uma solução criativa para um mercado travado pela proibição de publicidade de cigarros, ao transformar o ponto de venda em mídia dentro de lojas de conveniência. “Eles não sabiam onde gastar.
Eu organizei o espaço e vendi o ponto de venda como mídia”, relembra.
Mais de duas décadas depois, a mesma lógica orienta a Esquina do Futuro.
Em vez de apostar apenas em quantidade, o projeto foca em eletropostos com operação própria, padrão de conveniência elevado e recarga ultrarrápida, integrando café, banheiros, segurança e atendimento humano.
Até o fim de 2025, a rede deve ultrapassar 50 unidades, com expansão a partir de Porto Alegre para cidades do entorno, Novo Hamburgo, Maringá (PR) e, posteriormente, São Paulo.
A inspiração internacional e o papel da infraestrutura
A ideia ganhou forma durante o período em que Eduardo Costa viveu na Califórnia, entre 2014 e 2018. Nesse intervalo, ele acompanhou de perto o que chama de “ponto de virada” da Tesla.
“Eles perceberam que só vender carro não bastava. Precisavam entregar infraestrutura”, afirma.
Segundo ele, a instalação de carregadores rápidos em locais estratégicos, como no deserto de Nevada, mostrou que a infraestrutura de recarga é tão importante quanto o veículo.
Essa visão foi trazida para o Brasil em um momento oportuno, quando a frota elétrica ainda era pequena, mas já apontava para um crescimento acelerado.
Como funciona o modelo da Esquina do Futuro
A proposta da Esquina do Futuro se diferencia por três critérios essenciais: segurança, conveniência e estrutura operacional. Sem esses pilares, o ponto não entra na rede.
“Ninguém quer sentar no meio-fio enquanto o carro carrega. Carregador sem banheiro, sem cobertura e sem segurança é um desserviço”, diz Costa.
O investimento por unidade pode ultrapassar R$ 10 milhões. Ainda assim, o retorno já é positivo. “Está se pagando.
Melhor do que eu esperava”, afirma, destacando que a eficiência operacional será decisiva quando a concorrência aumentar.
Concorrência cresce, mas gargalo permanece
O número de eletropostos no Brasil cresceu de forma explosiva nos últimos anos, impulsionado por montadoras, startups e grupos de energia.
No entanto, a diferença entre instalar e operar ficou evidente com o tempo.
“Tem ponto com vários carregadores abandonados. Não adianta instalar se ninguém cuida. Isso é infraestrutura crítica”, afirma o empresário.
Enquanto parte do mercado aposta em carregadores lentos em estacionamentos e supermercados, a Esquina do Futuro busca atender um consumidor urbano que valoriza rapidez, conforto e experiência.

Desafios estruturais da mobilidade elétrica no Brasil
Apesar do avanço da eletromobilidade, o setor ainda enfrenta obstáculos relevantes. Entre eles estão a falta de regulamentação nacional, o alto custo da recarga ultrarrápida, limitações da rede elétrica e falhas de manutenção.
Estima-se que até 40% dos pontos públicos estejam inoperantes. Além disso, instalações mal feitas elevam o risco de incêndios. “Segurança é inegociável.
Se não tiver extintor específico, você está colocando vida em risco”, alerta Costa.
Próximos passos e visão de longo prazo
O Grupo Farroupilha, que faturou mais de R$ 500 milhões em 2024, já prepara a chamada “fase dois” da Esquina do Futuro.
A estratégia envolve interiorização, integração com energia renovável e ganho de escala.
“Hoje a rentabilidade é boa, mas isso vai mudar. Vai ter guerra de preço e só quem souber operar vai sobreviver”, afirma.
Nesse cenário, a mobilidade elétrica no Brasil deixa de ser promessa e se consolida como realidade, exigindo não apenas tecnologia, mas uma infraestrutura de recarga capaz de sustentar o futuro da eletromobilidade.





